Ciclicamente,
surgem parangonas que dão conta dos “abusos” da praxe. Desde alunos que foram
banhados com excrementos de parentes próximos dos seus torcionários ao mais
recente exemplo de carnificina académica. Sempre que surge a notícia de algum “excesso”
da praxe, logo alguns reclamam a existência de vários tipos de praxe de forma a
acalmar os ânimos dos que pedem a proibição imediata da praxe. Nenhuma das
opiniões me seduz.
Comecemos
pelo fim. A praxe académica é uma questão que diz respeito aos estudantes e a
sua existência só deles deve depender. Nesse sentido, o recurso a medidas
coercivas formais não é certamente o melhor caminho. Os casos que resvalam para
o campo da ilegalidade devem ser tratados como tal e pelas autoridades
competentes, extravasando assim o domínio restrito da praxe. Ou seja, a praxe não deve ser proibida por
qualquer entidade, seja ela a reitoria ou o MCTES. A delimitação é muito clara
e só depende daquele que se sente vítima de uma qualquer agressão.
A verdadeira
polémica em torno da praxe prende-se com questões de princípio e não com os
incidentes violentos, apresentados como desvios acidentais de percurso, que
contrariam o “espírito” da praxe. Na verdade, até hoje, qualquer tentativa de
discutir com alguém a problemática em torno da praxe foi sempre interrompida,
voluntária ou involuntariamente, por afirmações solenes do carácter íntegro do
meu interlocutor. A praxe, no fundo, seria um fenómeno que compreenderia dois movimentos
antitéticos: um benigno e integrador, outro maléfico (qual obra do demo), desprovido
de escrúpulos. Não é preciso ser muito perspicaz para perceber que ninguém se atreve
a incluir-se na claque da versão hardcore.
Esta é a
primeira grande distorção de todo o debate em torno da praxe: existem várias
praxes, cada uma com uma estrutura moral e ética diferente. Isto corresponde a
uma tremenda mentira. A praxe é a praxe e tem inscrita no seu código genético a
humilhação, a subordinação e a subserviência, independentemente dos moldes em
que é praticada. Tudo o resto são onirismos (apelo desde já aos verdadeiros
puristas da praxe: a praxe não pode ser vista como um instrumento de
acolhimento e, imagine-se, como um momento de aproximação entre os alunos mais
velhos, nalguns casos o termo idosos é mais adequado, e os alunos que se
inscrevem pela primeira vez neste antro de sapiência. A praxe deve constituir
uma prova de sacrifício e estoicismo que não pode ser afrouxada por eunucos
arremedos de consciência).
Não projecto um pingo de ironia nestas linhas.
Deve haver uma clarificação cabal do que é a praxe, em nome da honestidade
intelectual dos intervenientes no debate. Porque mesmo aqueles que afirmam que
a praxe pode assumir diferentes contornos e que advogam uma versão quase beata
da praxe não dispensam que o dito estreante conte todos os paralelos da calçada
ou que adorne a frase com uma referência ao título nobiliárquico ostentado.
Porque 2700 euros dão-nos algumas prerrogativas e a farda carrega uma tremenda
imponência. Sejamos sinceros, a praxe não sobreviveria sem as boas doses de
autoritarismo, hierarquia e chauvinismo que a caracterizam. Porque deixaria de
ser praxe e passaria a ser um mecanismo de integração. E até hoje não conheci
ninguém que tivesse por principal móbil para a actividade “praxante” a
integração dos “caloiros”. Até porque se fosse esse o caso poderia
perfeitamente dispensar as bajulações tipificadas e poderia inclusivamente
vestir à civil. No fundo, aqueles que defendem a praxe “civilizada” pretendem
humilhar, ultrajar e verberar as suas novas cobaias mas com modos e fino
recorte.
Com isto
quero dizer que esta psicose colectiva se sustenta numa dinâmica coerciva e que
a sua sobrevivência depende, acima de tudo, da conservação desta
característica. A panóplia de argumentos alternativos que remetem para o
sentimento de unidade e amizade forjada nas “duras condições da praxe” e para o
carácter inclusivo destes rituais ancestrais, demonstram uma visão de tal modo
voluntarista e assumem um tal nível de incongruência que nem merecem atenção.
Gostaria
ainda de fazer referência a dois aspectos da praxe que se encontram intimamente
ligados à questão colocada anteriormente. Em primeiro lugar, o facto de a
adesão à praxe não ser um acto inteiramente livre, como muitos gostam de afirmar.
O nível de intimidação e violência a que são sujeitos os alunos que decidem não
participar no Carnaval Académico é verdadeiramente abjecto. Desde ameaças de
ostracismo forçado a proibições de utilização das cantinas, da frequência do BA
ou do Enterro, tudo vale para acalmar a sanha dos Torquemadas de novo tipo (a
indumentária também ajuda).
Em segundo
lugar, queria fazer alusão ao carácter institucional e à promiscuidade que se
tenta promover entre a praxe académica com os seus órgãos ad hoc e a AAUM. Apesar desta complacência já ter sido maior,
continua a verificar-se uma utilização abusiva da AAUM (cujos dirigentes pecam
mais por omissão do que por acção) e dos seus serviços, como se existissem três
modalidades de sócio: o sócio de pleno direito, o sócio por inerência e o
“sócio que se recusou a fazer flexões em frente ao Prometeu”.
Por fim,
gostaria de salientar que não sou anti-praxe. Por dois motivos: porque não
quero acabar com a praxe (pura e simplesmente não sou um entusiasta do rito e
como tal abstenho-me de participar) e porque não reconheço autoridade nenhuma a
quem pretende distribuir esses epítetos ao abrigo do seu mandato divino. O que
não implica que não me repugne o processo inquisitório que se desenrola todos
os anos, protagonizado por hordas de seres enraivecidos e de olhar esgazeado,
sempre que se deparam com um dissidente da nobre causa e o pretendem submeter à
expiação pública à luz da ordem gerontocrática (não confundir com geriátrica)
que juram defender. Não é muito confuso… |