«Liberty is not a mean to a higher political end. It is itself the highest political end» (Lord Acton, 1877)
O
ministro Augusto Santos Silva, que tutela a comunicação social (vejam
bem, tutela), quer "acabar com o
jornalismo de sarjeta". A causa parece nobre. Mas todos sabemos
que de boas intenções está o inferno cheio...
Recordem-se que os coronéis do lápis azul, que durante o antigo regime
zelavam pela tranquilidade social e pela defesa dos bons costumes, abraçavam
também esse nobre objectivo de acabar com o jornalismo de sarjeta.
Infelizmente,
o ministro não está sozinho nesta sua sanha contra os jornalistas
que confundem liberdade com libertinagem. Muitos portugueses acham que este país precisa é de mais respeitinho. "Qualquer dia cada
um faz o que quer", ouve-se a muito boa gente por esse país fora.
Ora qual é o mal de cada um fazer o que bem entende, pergunto eu?
Voltando a Santos Silva: para acabar com o
jornalismo de sarjeta, o ministro quer conferir à Comissão da Carteira
Profissional competências para castigar os profissionais que não respeitem
os artigos 25 e 26 da Constituição (ver entrevista ao Correio da Manhã).
Nesta
entrevista, Santos Silva afirmou que a sua luta é contra o jornalismo
que põe em causa os direitos consagrados nos referidos artigos: "a integridade moral das pessoas, bem como a sua identidade pessoal,
capacidade civil, cidadania, bom-nome e reputação, imagem, palavra,
reserva da intimidade da vida privada e à protecção legal contra
quaisquer formas de discriminação".
Antes
de mais, não deve ser o ministro a definir o que é ou não bom jornalismo.
Caso contrário, poderão ser postos em causa direitos constitucionais
como a liberdade de expressão e de imprensa.
Permitam-me
que refira alguns exemplos: imaginem que um jornal descobre que um político
moralista, defensor de posições ultra-conservadoras, é afinal um
hipócrita que tem por hábito frequentar casas de meninas. Deve o jornal
publicar algo sobre o assunto, ou, por respeito às noções de bom
jornalismo do nosso ministro, abster-se de publicar o que quer que seja?
Outro
exemplo, quiçá mais real: um jornalista descobre que existem
várias irregularidades no processo de licenciatura do primeiro-ministro.
Deve o jornalista escrever uma peça sobre esta questão, ou, pelo contrário,
evitar pôr em causa o bom nome e a reputação do chefe do governo?
Além
disso, não existem já leis e tribunais suficientes para zelar pelo
cumprimento da Constituição? Será mesmo necessário criar uma espécie
de ‘tribunal’ corporativo para castigar quem viole a lei? Não vivemos
nós num Estado de direito, em que existe um orgão de soberania –
os tribunais – encarregue de administrar a justiça, quer se trate
de jornalistas, de canalizadores ou de políticos? A
liberdade de expressão, como notou recentemente um juíz norte-americano
- sim, um magistrado dessa grande democracia com quem temos ainda muito
que aprender, ao contrário do que muita cabecinha bem pensante julga
-, existe precisamente para garantir o direito a dizer disparates. Se
os jornalistas escreverem disparates, que sofram as consequências
previstas na lei, conforme a decisão de um tribunal. Pois uma comissão
disciplinar composta por jornalistas – por muito bem intencionados
que estes sejam - nunca terá a eficácia, a competência e a
legitimidade que, num Estado de direito, devem permanecer do foro exclusivo
dos tribunais.
|