A atmosfera apocalíptica do Conde de Lautréamont paira mais uma vez sobre a cidade de Braga. Adolfo Luxúria Canibal e Miguel Pedro dos Mão Morta são os convidados da Comunidade de Leitores do estaleiro cultural Velha-a-Branca para uma sessão, no dia 4 de Junho, pelas 21h30, em torno do livro “Os Cantos de Maldoror”.
Na primeira segunda-feira de cada mês, a comunhão de um livro\texto escolhido pela Comunidade de Leitores da Velha conta com a presença de alguns convidados especiais. Desta vez, o vocalista e baterista dos Mão Morta participam na discussão, já que mantêm uma grande proximidade com a obra de Isidore Ducasse, que escreveu os Cantos sob o pseudónimo de Conde de Lautréamont. Para além de ser um livro de cabeceira desde sempre, “Maldoror” é o nome do espectáculo mais recente dos Mão Morta, estreado no Theatro Circo de Braga a 11 de Maio.
A Comunidade de Leitores estende-se à participação de todos. A entrada é livre e não se encontra sujeita a inscrição. Para os membros da Comunidade, o livro em discussão encontra-se à venda com desconto nas Expressões-da-velha (r/c da Velha) e na Livraria 100ª Página.
Braga espreita através do vidro do aquário de Maldoror
Parece que “está dito”. No segundo dia do espectáculo, o Theatro Circo enche-se novamente para se embrenhar no mundo assustador que os Mão Morta recriaram a partir dos Cantos. Até ao terceiro balcão. E a entrada brutal estremece até o lustre dos cartazes do Circo pendurado no tecto.
Na hora e meia que se seguiu, o declamar frenético de Adolfo, o paralelepípedo de quase três metros a meio do palco com a bateria de Miguel Pedro mesmo lá em cima, a indumentária monstruosa de todos os músicos, as luzes, a encenação, o vídeo projectado no mesmo paralelepípedo gigante, e a música que rodeava o palco, misturaram-se com histórias de meninas inocentes, escaravelhos, porcos e pederastas.
Os vários pedaços dos Cantos desenrolam-se num cenário quase sempre vermelho escuro, aliás, vermelho sangue, a cor de Maldoror. “Maldoror foi bom nos seus primeiros anos, em que viveu feliz. Reparou depois que tinha nascido mau: fatalidade extraordinária! Quem diria que, ao beijar uma criança de rosadas faces, gostaria de lhe arrancar as bochechas à navalha”, e o rol de maldades perdura durante todo o espectáculo.
E quando Adolfo Luxúria Canibal mergulha as mãos no aquário de Maldoror o público estremece. Os dedos dentro das luvas azuis, os tubarões-peixinho-vermelho a vadiar na àgua límpida, e chega-se mesmo a pensar que os vai torturar ou comer vivos, ou algo pior (se for possível). Mas o espírito do livro absorve mais profundamente o público quando é entoado o refrão: “Estou sujo, roído de piolhos, os porcos quando olham para mim vomitam”, no qual participa sussurrando as palavras do mal entre dentes.
Depois dos dois espectáculos em Braga, no dia 11 e 12 de Maio, e da passagem dos Mão Morta por Portalegre no dia 19, os Cantos voltam a ecoar ainda no Inverno deste ano. Para enfernizar o público mais corajoso.